terça-feira, 4 de agosto de 2009

Profissão: Mentira...




É extremamente fascinante perceber o quanto as pessoas têm vergonha dos seus respectivos empregos e decidem inventar ou sofisticar o cargo. Isto é algo que já notara tem tempo assistindo programas voltados para o público C, D e Z. Sempre que o apresentador perguntava a profissão, o participante falava algo que visivelmente era uma outra coisa maquiada criando a dúvida no ar. Explicarei.
Não sei ao certo qual foi o primeiro caso no qual notei isto, mas lembro de um específico que deve estar entre os mais antigos. Foi no programa do Marcio Garcia. Ele perguntou a profissão da mocinha e ela respondeu que trabalhava na área de saúde. Na hora me veio à cabeça: “Ahá, é técnica de enfermagem! Não, aplica injeção em farmácia! Não, peraí! Trabalha medindo a pressão das pessoas na calçada por R$ 1,00!”.
Confesso que fiquei orgulhoso de mim mesmo. Ora, era a primeira vez que notava a minha capacidade de decodificar “profissões camufladas”. Depois deste dia tudo foi diferente. Não tem um momento sequer que uma pessoa fale o emprego e na hora desvende sua real profissão.
- E aí, cara? Está trabalhando?
- Pô, trabalhando muito.
- E trabalhando com o quê?
- Trabalho com divulgação.
- Panfleteiro?
- Não!
- Homem-Sanduíche (se não sabe o que é, vai pesquisar)!
- Não!
- Já sei! Trabalha pendurado em Kombi falando o itinerário!
- É, mais ou menos...
Não dava outra. Ninguém mais era capaz de esconder a profissão da qual tanto sentia vergonha. Poderia até precisar de três chances, mas na maior parte das vezes acertava de primeira mesmo.
- Ainda está trabalhando naquela loja do shopping?
- Não! Abri meu próprio negócio no ramo de fast-food.
- Sei. Vende sanduíches e quentinhas para os lojistas do mesmo shopping.
- É, isso...
Mesmo achando que sua capacidade de incrementar a profissão seja fenomenal, nada pode ser escondido de tamanho poder celestial. Até o improvável fica claro para mim.
- Poxa cara, não vai dar. Trabalhei muito esta semana. Estou morto.
- Poxa, que chato. E está trabalhando com o quê?
- Trabalho com propaganda e publicidade.
- E não é a mesma coisa?
- Acho que não...
- E o que faz?
- Meu cargo basicamente é reforçar a marca dos meus clientes na praça.
- Ok... Você que cola os outdoors pelas ruas...
- É... Isso...
O interessante é pensar como este poder chegou até a mim. Alguns heróis surgiram após picadas de aranhas radioativas, experimentos genéticos, fusão com seres alienígenas. Acho que sou o único ser poderoso cujo poder veio de uma experiência traumática. Foi mais ou menos assim:
Teve uma época em que trabalhava em uma empresa de cartão de crédito no setor de sigilo de dados, com isto, precisava trabalhar aos sábados. Só que nestes dias especificamente a coisa era meio informal. Tanto que ia de bermudas, tênis e, na maioria das vezes, camisas com as mangas cortadas.
Certa vez, trajando algo mais ou menos neste estilo (se isto é realmente estilo), pedi uma pizza. Após buscá-la na recepção, dirigi-me ao refeitório. Entrando no recinto, com a caixa de pizza na mão, deparei-me com uma moça que ao me ver arregalou os olhos de felicidade:
- Ah, que bom. Você meio colocar café na máquina. Estou precisando de um urgentemente.
- Ahn???
- Ué, você não é da manutenção?
- Não!
- Ai, desculpe. Agora que vi nas suas mãos. Você veio apenas entregar a pizza.
- Não! Eu sou do setor de segurança!
- Ah, tá! Você está na hora de almoço.
- Isso.
- E como iria adivinhar que é porteiro sem a farda?