
Uma das coisas que costumo repetir insistentemente toda vez que alguém fala sobre a morte é que não existe dignidade na morte. Seja qual for a sua forma de morrer, não tem como ser de forma digna. Seu corpo se descontrola, dejetos são postos para fora dele, além do simples fato de sequer possuir a chance de tentar corrigir ou voltar atrás. Morreu, está feito, ponto final.
Contudo, ao contrário da morte, na vida, dá para se ter um mínimo de dignidade. Mesmo estando à beira dela. Até a chegada da madame vestida de preto, toda oportunidade de se ter o mínimo de dignidade pode e deve ser aproveitada. Depois, bem, depois como disse antes, já era.
O mais interessante nisto é que mesmo assim existem pessoas que conseguem alcançar categorias de morte que são capazes de comprometer toda uma vida repleta de dignidade. Basta lembrar de mortes famosas como afogado em um prato de sopa, engasgado com um salgadinho ou em um acidente de trem.
Os três casos que citei acima são mortes de músicos famosos. E, neste exato momento, você deve estar se perguntando qual seria o fato tão bizarro em uma morte envolvendo um acidente de trem. Bem, some à história o fato do falecido ter pavor de viajar de avião e, com isso, optou por viajar de trem. Ok, concordo que não ir de avião por medo de morrer e acabar morrendo com um acidente de trem já soa irônico, mas acrescente ainda outro fato. O acidente do trem não foi com outro trem. Foi com um avião que caiu sobre o trem. Demais, não é mesmo?
Pois bem, dei uma volta enorme e acabei não falando do que pretendia. Imagine que em certo momento da sua vida você perdeu toda a sua capacidade de mostrar dignidade ao outros. Sua vida torna-se patética e muito estranha para vizinhos e conhecidos. Pois é, este é o caso da inglesa Joan Cunnane. A cidadã que, aliás vale a pena citar, é bem velhinha, ficava muito incomodada com o barulho da vizinhança. Daí, para não ter de aturá-los durante o dia, ela saía para fazer compras. Ora, a senhora ia todo santo dia para a rua fazer compras. E quando falo compras, é no sentido mais plural possível. Comprava muitas coisas mesmo. As pessoas comentavam que na casa dela tinham roupas, entre outros bens, empilhados até o teto. Era quase um mega-almoxarifado, só que muito desorganizado.
Convenhamos, isto é quase o fim da humanidade. Ou, no mínimo, da inteligência. Uma pessoa que para fugir do barulho opta por transformar a própria casa em um caos e, mesmo assim, não fica isenta da barulheira, não pode ser levada a sério. Pois é, ninguém a levava a sério. Tão pouco a madame vestida de preto. Na hora de buscá-la, fez da pior maneira possível.
No final do ano passado, um vizinho notou que a porta da casa de Joan estava aberta. Ele entrou, tentou procurar por ela, mas tamanha era a bagunça que optou apenas por chamá-la. Não obteve resposta, foi embora. Como a porta manteve-se aberta pelos dias seguintes, os vizinhos começaram a ficar preocupados. Ainda mais sabendo que em outros dias, algumas pessoas também tentaram acha-la, mas sem sucesso.
Enfim, depois de muitas tentativas, a polícia, acompanhada de um caminhão, optou por esvaziar a casa. Então, eis que surge Joan, morta, sob uma pilha monstruosa de roupas. Assassinada pela própria solução do seu problema.
Pois é, imagine a insatisfação de Joan ao saber que a desenterraram da sua própria obsessão para enterrá-la sobre vários quilos de terra e adubo, sem sequer poder evitar que isto aconteça. Ela com certeza iria concordar comigo.














