
Eu adoro estes cadernos de bairro. Eles não possuem notícias interessantes para publicar, pois as interessantes foram publicadas na parte de notícias locais do jornal. Com isto, restam as notícias pitorescas de fatos que só servir para recortar e mostrar para a vovó:
- Veja, vó! Apareci no jornal!
- Mas, meu neto, é no caderno do bairro. E a reportagem fala que você é famoso na região pelos seus ensaios de tuba transversa erudita no meio da pracinha. Isso é meio vergonhoso, não?
Enfim, o caderno desta semana trouxe uma pérola que renderia sete post, mas foi resumir em um único. Segue um trecho da matéria:
“A partir de um sonho, o ator e bailarino do Centro Coreográfico da Tijuca André Bern criou uma ação performática para homenagear as vítimas do acidente do voo 447 da Air France. A ideia é recolher 228 mensagens de apoio às famílias dos mortos, dobrá-las em origâmis e lança-las do alto de um edifício.”
Vamos analisar cuidadosamente apenas este primeiro parágrafo. E percebam que é mais do que suficiente para encher muitas linhas.
Inicialmente percebe-se que o cidadão está desempregado. Pois se o cara é ator e bailarino e mesmo assim tem tempo para desenvolver um “projeto” destes, é claro que não faz nada da vida. Aliás, esta mania das pessoas de tentar aumentar a profissão é um ótimo tema para outro post. É, outro post! Seguindo...
O projeto do cidadão é homenagear as vítimas. Homenagear! Mas por quê homenagear? Porquê morreram em um evento trágico? Elas não tem de receber homenagem. A família, sim, que precisa de suporte, principalmente os filhos. Mas enfim, seguindo...
A homenagem é colher 228 mensagens, dobra-las em formato de aviãozinho (origâmi é o cacete!) e jogar do topo do prédio. Ok, voltemos às homenagens. Na cabeça de quem que encenar um avião saindo do topo de um prédio se esborrachando no chão e depois sendo atropelado pelo 638 em plena Conde de Bonfim é uma homenagem? É quase como fazer barquinhos de papel e homenagear as vítimas do Titanic vendo os barquinhos afundando da mesma forma em pleno chafariz da Praça Saens Pena.
O ator e bailarino tenta justificar: “É tão desastroso o que aconteceu que gostaria de contribuir de alguma forma. De ser solidário a eles.” Ah, claro! E obrigando-os a assistir 228 quedas de aviõezinhos é uma ótima opção.
Como tem sempre alguém que fica batendo palma para maluco dançar, outros três indivíduos se uniram ao projeto dele. Sim, quatro pessoas unidas dobrando mensagens e tacando do topo de um prédio pode ser chamado de projeto, cara-pálida. Pelo menos por ele...
Um outro integrante ajuda no discurso: “É uma situação delicada, e temos que ter cuidado. Queremos ajudar a amenizar o sofrimento e passar energia positiva.” Ah, quer ajudar a amenizar? Que tal deixar eles por conta própria seguirem a vida deles? Que tal deixar que eles lembrem apenas dos parentes perdidos, e não mais do evento trágico em si? Não, claro que não! Aliás, estará algum parente das vítimas por lá para presenciar este projeto? Claro que não! Então como, óh céus, como as famílias terão as dores amenizadas? Depois de receber as 228 cartas recolhidas do meio da rua amassadas por pneus de carros e ônibus?
Ah, tem este detalhe. Se o responsável pelo projeto é ator e bailarino, é claro que terá uma performance no momento. Provavelmente farão caras de conteúdo que na posição clássica da garça cinza tailandesa comporão todo o evento em si. Lembrando que o evento em si é jogar aviõezinhos de papel do topo do prédio.
Outro integrante vai fundo na filosofia do projeto: “É dar um novo significado à morte!” Peraí, eles darão um novo significado à morte? Mas qual era o antigo significado da morte? Quem sabe não consigam no próximo projeto performático deles descobrir o significado da vida?
Pois é, fico com pena dos parentes que, sem queres, se depararam com esta forma clássica de picaretagem de conseguir atenção e, quem sabe, um emprego. Fico com dó das vítimas, não mais apenas pela tragédia, mas por serem homenageadas por um projeto deste. E, mais ainda, fico com pena do pobre coitado do gari que terá de varrer as 228 mensagens em formato de aviãozinho que emporcalharão a rua no dia.
Porém, apesar das pessoas insistirem em dizer que nunca vejo coisas de boa na vida, neste projeto temos uma ótima coisa para exaltar. Exaltaremos à excelente escolha do mentor do projeto por escolher as vítimas do voo 447 para homenagear. Pois se fossem as vítimas da Gripe Suína, iriam jogar pedaços de presunto e paio do topo do prédio.